“Não existe retrofit de reputação”

Em outubro, um consultor acostumado a explicar o Brasil para estrangeiros tomava café com um professor alemão da prestigiada escola de negócios suíça IMD no hotel Ritz, à beira do lago de Genebra, quando a conversa enveredou para problemas de trânsito. O brasileiro contava ao alemão como funciona o sistema de pontos na carteira de motorista quando foi interrompido: “Como assim, pontos?”.

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Ele explicou. Quem comete infração ganha pontos. Ao atingir determinada pontuação, a carteira é suspensa. Cumprida a punição, o infrator recobra o direito de dirigir. “Como assim, infringir a lei de trânsito?”, inquiriu o interlocutor.

Protagonista do diálogo, Herbert Steinberg, sócio-fundador da Mesa Corporate Governance, usa essa história real fantasiada de parábola para ilustrar seu ceticismo em relação a possíveis mudanças no padrão de governança das empresas no Brasil depois da Operação Lava-Jato.

Com 20 anos de experiência no ramo depois de ter sido executivo de grandes empresas como Santander, McDonald’s e Citibank, ele simplesmente diz não acreditar em melhora no padrão de governança. A cultura brasileira, permissiva e condescendente para com todo tipo de irregularidade, não permite.

“Falar que a Petrobras está inserida num compliance, que a Odebrecht agora tem um sistema de compliance, Queiroz Galvão, UTC, é uma piada”, afirma. Steinberg compara o efeito da Lava-Jato ao de um acidente de avião ou um grande incêndio. Logo após o evento, todos se preocupam, a fiscalização aperta, os procedimentos são seguidos à risca, alvarás são revistos, vistorias tornam-se rigorosas. Passado o baque, o tempo se encarrega de acomodar tudo, relaxam-se as medidas e as coisas voltam a ser como eram – ou quase. “É um movimento pendular”, define. “A diferença é que agora a oscilação do pêndulo é mais longa.”

A situação não vai mudar sem que a estrutura de negócios, o modelo tributário e o ambiente institucional sejam completamente mudados no país. Sem falar na mudança de mentalidade – e de comando – nas empresas. “Não é possível a Odebrecht se resolver sem que se quebre em três ou quatro, sem que se mude a estrutura societária para preservar a expertise”, afirma Steinberg.

Para o consultor, não é possível que empresas com tamanho grau de comprometimento da imagem se recomponham perante o público e o mercado. “Não se faz retrofit de reputação. Isso não existe.” Para ele, executivos sérios não vão colocar sua carreira em risco em uma empresa cuja mudança seja apenas cosmética, que o consultor classifica como “compliance de check-list” ou “para inglês ver”, em lugar de uma reestruturação de verdade.

Ele se considera um otimista incorrigível: “Sou o cara do copo meio cheio”. Ainda assim, não espera da Lava-Jato nada muito além do resultado que ela já proporcionou – alguns políticos e empresários presos, um tremendo “downsizing” nas contas do país, além da mudança no cenário das empreiteiras e um impacto profundo em toda a cadeia da Petrobras, “que soma umas 15 mil empresas, afetada ao limite da quebra, que a economia só por isso já sente”.

Grandes companhias, governos e entidades atolados em corrupção ou fraude não é exclusividade do Brasil. Tanto que a cena com o professor alemão se deu em um país que também tem seus esqueletos no armário e, premido pela Justiça dos Estados Unidos no caso das investigações da compra de votos na Fifa, está alterando sua legislação de sigilo bancário – uma instituição tão suíça quanto o chocolate.

São coisas que acontecem até na “séria” Alemanha, onde a Siemens encalacrou-se em um escândalo de pagamento de propinas há uma década. No Brasil, a companhia enfrenta a acusação de envolvimento com irregularidades no fornecimento de material ferroviário – em consórcio com a também alemã Daimlerchrysler, a francesa Alstom e a espanhola CAF – para sucessivos governos do PSDB em São Paulo. Algo parecido se dá com a Volkswagen, atolada na adulteração de softwares de cálculo de emissão de poluentes, o chamado “dieselgate”.

O que torna a situação no Brasil pior é o contágio de várias empresas de diferentes setores pela praga da irregularidade. “Esse sistema não para de pé sem alguma transgressão, sob o ponto de vista que o sistema tributário hoje e os elementos burocráticos do Brasil não são amistosos ao empreendedor”, define Steinberg.

“Temo pelo nosso país. Ele tem um problema cultural. Ele precisa de um reposicionamento cultural e de endomarketing. Precisamos de um projeto que, além de ser social, inclusivo e responsável fiscalmente, necessita de uma repaginação de posicionamento frente à nossa cultura. Tem que passar a ser legal fazer direito, não cometer infração.”

Em compensação, o Brasil vive uma oportunidade inédita de abrir totalmente seu mercado de construção para o capital estrangeiro, em especial para os chineses, ávidos por assumir as grandes empreiteiras brasileiras, todas elas alvejadas pela Lava-Jato. São também os chineses que devem emplacar novos investimentos, sobretudo na infraestrutura, a exemplo do que já tem ocorrido na área de energia – e não só no Brasil.

De todo modo, o dinheiro vai entrar não porque o Brasil tenha se tornado atraente, mas porque os recursos precisam de um destino e não há muitas alternativas pelo mundo, defende. “Não é porque ‘agora vai’, não é porque vai ter reforma. É porque lá fora os investimentos estão muito complicados, não existem economias buscando capital como o Brasil”, afirma. Para ele, só o capital discricionário. “Não se engane achando que agora vai ter um espetacular fluxo de capitais para o Brasil.” O que pode ocorrer, na sua visão, é, caso o governo abra a possibilidade, ocorrer uma enxurrada de capital chinês nas universidades privadas, em associação com os acionistas brasileiros.

Em sua atividade, Steinberg afirma avaliar em média 30 demonstrativos de resultados por mês de empresas de todos os tamanhos. Diz que não tem encontrado nelas nada muito diferente nos últimos meses. Há uma tendência de melhora, “mas nada representativo”.

O que há é “uma mudança de humor”, define. “Não por indicadores, reação do desemprego, investimento, reformas… Na verdade há uma percepção de que essas coisas afetarão positivamente a economia. Então há uma predisposição dos empresários.

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