Se no fundo novo de Contribuição Variável (CV) da Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, a preocupação é com a diversificação e educação dos participantes, que ainda estão longe de se aposentar, no antigo, o de Benefício Definido (BD), o esforço é garantir liquidez para pagar os aposentados. “Pagamos R$ 12 bilhões em benefícios por ano, R$ 1 bilhão por mês”, explica Geitiro Matsuo Genso, presidente da Previ. Por isso, nos últimos dois anos, o esforço da fundação se concentrou em tornar as 12 ações que concentram 95% de suas aplicações em bolsa em papéis mais líquidos, mais fáceis de vender.
Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!Vale, reestruturação valoriza empresa
Um exemplo foi a operação que o fundo liderou na Vale, por meio da Litel, que reúne os fundos de pensão que controlam a mineradora. “Melhoramos sua governança, pulverizamos o controle e trocamos as ações PNB, sem voto, por ON, com voto, e estamos propondo levar a empresa para o Novo Mercado da B3”, diz Genso. “A partir de fevereiro, teremos passado o período de ‘lockup’ e poderíamos vender parte da participação”, explica, acrescentando que “não precisamos vender, mas podemos a qualquer momento estudar”, diz. Também na Neo Energia haverá uma reestruturação, segundo fato relevante, que aumentará a participação da espanhola Iberdrola e reduzirá a da Previ de 49% para 38%. “Em um horizonte próximo, nossa carteira vai se tornar mais líquida”, diz.
Segundo Genso, apesar da fase de desinvestimento, a renda fixa não perderá espaço na Previ, mas vai ter outro perfil. “Até pela queda dos juros, ações serão mais importantes”, diz. “Estamos na fase de definição de política de investimento, que vai de setembro a outubro de cada ano, e vamos definir quais são os setores da economia que tem potencial de alta para um fundo de pensão maduro nos próximos anos”, diz.
Ações mais líquidas e empresas com mais governança
A partir dessa análise setorial a Previ vai trabalhar um programa chamado de desinvestimento líquido. “Vamos ter uma parcela importante de renda variável nos próximos sete anos mas não necessariamente serão os mesmos que temos hoje”, afirma Genso. “Ao longo do tempo, as ações que tenho hoje serão substituídas por outras mais líquidas, que não façam parte do bloco de controle com acordo de acionistas”, explica. “Vamos procurar empresas que tenham pagamento de dividendos, liquidez e, principalmente governança, pois passaremos a ser minoritários no negócio”, diz.
Modelo para avaliar governança
Por isso, a Previ está também reforçando sua análise de governança e sustentabilidade das empresas, criando um modelo para avaliar as companhias. “Estamos tentando identificar quais são os indicadores objetivos que eu posso usar para avaliar se uma companhia tem mais ou menos de governança que a outra, e dessa maneira pagar mais pela qualidade”, diz. A ideia é criar um ranking de governança para classificar as empresas do mercado que pode depois ser ampliado para outras fundações e investidores.
Outra preocupação da Previ é com o fortalecimento de seu Programa de Integridade, criado em 2014 e que está sendo revisto este ano e passará a exigir os mesmos padrões das empresas investidas. “A gente viu aí que só os mecanismos tradicionais de governança não adiantam, queremos que a governança esteja de fato na cultura da companhia e sabemos que governança maior, integridade e complacência não são custos, são investimentos de fato”. Ele cita o caso da Vale, que teve seu preço justo ajustado para cima por bancos internacionais, para os níveis dos concorrentes externos, após a operação que melhorou sua governança.
Sem Eldorado Celulose
Com relação a problemas com investimentos, Genso destaca o papel da governança nas decisões como fator decisivo para evitar problemas vistos em outros fundos de pensão. “Nós não temos problemas estruturais”, diz, dando o exemplo da operação da J&F com a Eldorado Celulose, investigada pela Justiça, e que teria dado prejuízo a fundos de pensão que compraram papéis acima do valor de mercado. “A gente analisou a operação e ela foi indeferida por unanimidade”, lembra. “Não quisermos entrar naquele ativo, o que protegeu a gente”, diz.
O fato de o Comitê de Investimentos ter representantes dos funcionários e a existência de vários comitês assessorando o Conselho também reduzem o risco de avaliações erradas, diz Genso. Há também segregação de funções. “Por exemplo, a política de investimento é da diretoria de planejamento, que tem um diretor escolhido pelos associados, e quem executa essa política é o diretor de Investimentos, que é indicado pelo patrocinador, o Banco do Brasil e quem controla tudo isso é nossa área de compliance”, explica. “Tudo isso faz com que ativos que chegam lá e não têm aderência à nossa política, e a gente não faz”, diz. “Tanto é que vários fundos tiveram perdas com papéis de bancos que sofreram intervenção e nós não tivemos”, diz.
Sete Brasil, comportamento exemplar
Mesmo no caso da Sete Brasil, fabricante de sondas para a Petrobras que entrou em recuperação judicial com uma dívida gigantesca, Genso diz que o comportamento da Previ foi exemplar. “Fomos citados como exemplo na CPI dos Fundos de Pensão”, cita orgulhoso. E conta o caso. “Em 2010, com o barril do petróleo em U$ 100, o pré-sal bombando, foi decidido investir na Sete Brasil e em sete sondas”, lembra. “Quem entrou lá foram investidores internacionais, banqueiros brasileiros, fundos de pensão de empresas privadas, como a Valia, era uma oportunidade de investimento maravilhosa”, diz, acrescentando que “banqueiro não rasga dinheiro”. Na época, a Previ investiu R$ 180 milhões e ficou com 9,9% do negócio, o Fundo de Investimento em Participações (FIP) Sondas.
“Acontece que, pouco depois, as sete sondas previstas se transformaram em 28, e houve um enorme aumento de capital que teríamos de acompanhar para manter a fatia de 9,9%”, lembra Genso. “O que aconteceu? A nossa área de Investimentos olhou para a nossa política lá constava que não podíamos comprometer mais de X por cento do património em investimentos estruturados, e recomendou que não colocássemos mais dinheiro na Sete Brasil”, recorda. Com isso, a participação da Previ caiu de 9,9% para 2,3%. “Mas os outros botaram dinheiro”, reforça.
Arbitragem contra a Petrobras
Assim, olhando isoladamente, a Sete Brasil foi um negócio ruim, admite Genso, mas o fato de não ter aumentado a participação é um caso de governança. “Mas realmente, a perda de R$ 180 milhões é relevante, tanto que abrimos um processo de arbitragem contra a Petrobras”, afirma Genso. “Entendemos que a Petrobras, por ser a estruturadora do negócio, teria responsabilidade, então tem uma arbitragem e vamos tentar recuperar o valor em todas as instâncias”, avisa.
Invepar, problema da economia
Outro caso polêmico, a operadora de concessões Invepar, que era da OAS, agora em recuperação judicial, é outro exemplo de bom negócio. “Se a gente pegar o valor que investimos e corrigirmos atualmente, ainda estamos ganhando”, diz Genso. Ele lembra que a Invepar é cona de excelentes ativos, como o o Metrô do Rio de Janeiro, rodovias e aeroportos. “Mas ela está sofrendo com a economia fraca, como todas as empresas do setor estão”, explica Genso. “Mas são ativos que, no primeiro retorno da economia, já começam a voltar”, diz. Segundo ele, a expectativa é que a parte da OAS seja vendida para um investidor estratégico que reestruture a empresa. “Também já saímos da Oi e da Usiminas”, acrescenta Genso, completando a lista das empresas em dificuldades que não estão mais na carteira da Previ.
Fundos fechados terão de mudar
Com relação ao futuro, Genso diz que ainda há grandes desafios para os fundos de pensão fechados. “Novas empresas não querem abrir fundos fechados pelos riscos que assumem e há uma nova geração de trabalhadores que não quer passar toda a vida numa empresa”, lembra. Uma alternativa é o que a associação do setor, a Abrapp, está trabalhando, a criação de um fundo fechado multisetorial, que poderia reunir todas as empresas de vários setores. “As pessoas poderiam mudar de emprego e continuar contribuindo”, diz.
Poderia ser criado, por exemplo, um fundo do Comércio, em que o trabalhador sairia da vaga em um bar e iria para um restaurante ou loja e continuaria no plano. “Outra saída são os fundos instituídos para familiares dos associados, que também depende de aprovação dos reguladores”, afirma Genso. “Há uma discussão no Conselho de Previdência Complementar em fase bem adiantada”, diz.
Nesse caso, parentes até terceiro grau de um associado poderiam contribuir com a Previ e aproveitar o menor custo e a gestão da empresa. “Há também a questão de encontrar recursos para financiar os investimentos produtivos no país, nos quais os fundos de pensão são importantes por serem geradores de poupança de longo prazo”.
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