Acionista questiona Eldorado sobre balanço

O FIP Florestal, que tem entre seus cotistas os fundos de pensão Petros e Funcef e é sócio da J&F Investimentos na Eldorado Brasil, está questionando a companhia sobre pontos das demonstrações financeiras de 2016. O fundo pediu esclarecimentos para pelo menos três temas, apurou o Valor.

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Dentre os pontos questionados estão duas ressalvas feitas pelo auditor independente e um empréstimo de R$ 24,5 milhões da companhia para seu presidente executivo, José Carlos Grubisich, com taxa de 100% do CDI e vencimento em 31 de dezembro.

O fundo, administrado pela Planner Corretora, já notificou a Eldorado, mas ainda não obteve resposta. Eventuais medidas que possam ser tomadas contra a companhia vão depender dos esclarecimentos prestados. Procurada, a Eldorado disse que tem uma relação de transparência e contínuo contato com os acionistas, gestores e administradores do FIP Florestal e toda a comunicação é feita de forma direta e particular.

O FIP Florestal também não foi formalmente comunicado sobre outro tema relevante: a negociação em curso entre a J&F e a Arauco para venda da produtora de celulose. A J&F detém 63,59% da Eldorado, em participação direta, enquanto o FIP tem 34,45% e o FIP Olímpia, de Grubisich, 1,96%. No FIP Florestal, Funcef e Petros têm 24,75% cada um e os demais 50,5% estão nas mãos da própria J&F.

Os chilenos ofertaram quase R$ 14 bilhões pela Eldorado, em proposta não vinculante que garantiu a exclusividade nas negociações até o fim deste mês ou início de agosto. O valor é muito superior ao que foi usado pela Planner na mais recente reavaliação do patrimônio do FIP Florestal. A corretora optou por uma avaliação conservadora, diante da revelação de irregularidades cometidas pela controladora, mas que envolvem a Eldorado, feita pela Baker Tilly.

A consultoria atribuiu valor de R$ 4,5 bilhões à companhia considerando-se apenas a fábrica existente – e R$ 8 bilhões se incluído o projeto de expansão. Contratada para dar uma segunda opinião, a Grant Thornton havia calculado para a Eldorado um valor de R$ 5,75 bilhões com uma linha de produção e R$ 11 bilhões ao fim de 2016, levando em conta duas linhas de produção.

Há quase um mês, a J&F e a empresa chilena tornaram pública a assinatura de um acordo para avaliar um “possível investimento” na Eldorado. Conforme acordo de acionistas celebrado entre J&F e FIP Florestal, disponível no site da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o fundo tem direito de preferência na operação mas pode ainda vender em conjunto sua participação. E tem ainda direito de veto ao nome do comprador, observadas determinadas condições.

Caso a J&F chegue a um acordo definitivo para venda de suas ações, a holding terá 30 dias para notificar o FIP Florestal. O fundo, então, terá outros 30 dias, contados a partir do recebimento da notificação, para informar se vai exercer o direito de preferência ou vender sua fatia. Procurada, a Planner confirmou que até agora não houve formalização sobre as tratativas em andamento.

Sobre o balanço de 2016, uma das ressalvas da KPMG refere-se a pagamentos no valor total de R$ 37,4 milhões feitos às empresas Viscaya e Araguaia do doleiro Lúcio Funaro, que está preso e é réu na Operação Lava-Jato da Polícia Federal. A companhia alega que esses pagamentos estavam relacionados a serviços prestados pela J&F, “fundamentados no contrato de rateio de utilização e ressarcimento de recursos administrativos datado de 01 de setembro de 2011, e não por aqueles consultores externos”. Até o fim dos trabalhos da auditoria, porém, a Eldorado não forneceu os documentos que comprovariam os gastos e a efetiva prestação do serviço.

A segunda ressalva está relacionada à classificação dos passos da companhia. A Eldorado obteve o perdão dos credores pelo descumprimento de certos compromissos financeiros (covenants), mas em negociações que transcorreram ao longo do primeiro trimestre. Assim, dívidas de R$ 5,329 bilhões e R$ 6,7 bilhões classificadas no passivo não circulante individual e consolidado em 31 de dezembro deveriam ter sido lançadas no passivo circulante, segundo a KPMG.

De acordo com fontes ouvidas pelo Valor, a desgastada relação entre os fundos de pensão e a J&F chegou ao pior momento após a delação premiada de Joesley Batista – em meados de maio -, na qual admitiu pagamento de propina em troca do investimento das fundações em empresas do grupo.

A percepção é que Petros e Funcef pretendem se desfazer de suas parcelas na Eldorado. Em outubro, a companhia chegou a informar, em fato relevante, que a J&F havia iniciado conversas com os dois fundos para comprar a fatia conjunta de 17,06%.

Procurados, os fundos de pensão não deram retorno ao pedido de entrevista.

Procurada, a Funcef não deu retorno ao Valor. A Petros, por sua vez, declarou, em nota, que a fundação “não comenta informações específicas sobre investimentos ou desinvestimentos.”

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