Em novo áudio, procurador preso diz: “Já fiz muito colega dele [advogado] ficar milionário”
Transcrição de conversa do jantar entre o executivo da JBS Francisco de Assis, o procurador Ângelo Goulart e o advogado Willer Tomaz revela acerto de propina, segundo Procuradoria
Um novo áudio integrante da delação da JBS, ainda inédito, revela detalhes do acerto de propina do executivo da JBS Francisco de Assis com o procurador da República Ângelo Goulart e o advogado Willer Tomaz, ambos presos preventivamente na Operação Patmos, em 18 de maio, por ordem do ministro do STF Edson Fachin.
Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!A Polícia Federal produziu um laudo com a transcrição da conversa, obtido por ÉPOCA, e enviado à Procuradoria da República da 3ª Região. Nesta segunda-feira (5), a PRR-3 apresentou denúncia contra Goulart e Willer por corrupção e obstrução à investigação de organização criminosa, na qual aponta que a conversa do jantar comprova o acerto de propina. A conversa ocorreu em um jantar na casa de Willer, em 3 de maio, já como parte das ações controladas da PF. Foi gravada e fotografada.
Foto feita por delator da JBS mostra jantar com a participação do advogado Willer Tomaz (à esq.)e do procurador Ângelo Goulart (Foto: Reprodução)
No jantar, os três discutem estratégias para “matar” a investigação contra a JBS na Operação Greenfield, que apura irregularidades em aportes dos fundos de pensão Funcef (Caixa) e Petros (Petrobras) para a Eldorado, empresa do grupo. A conversa gira em torno dos honorários pagos em caso de êxito na obstrução da investigação. O valor desse êxito dependeria do valor que a Procuradoria definisse para ressarcimento da JBS – quanto menor o ressarcimento, maiores os honorários.
Segundo a transcrição da PF, M1 é o executivo da JBS Francisco de Assis; M5 é o advogado Willer Tomaz; M6 é o procurador Ângelo Goulart (Foto: Reprodução)
Ao falarem desse êxito, Francisco, da JBS, comenta sobre o advogado Willer: “Cara ganhou uma Mega-Sena”. Em seguida, o procurador Ângelo Goulart sugere que já ajudou outros advogados: “Eu já fiz muito colega dele ficar milionário”. Willer intervém no diálogo, afirmando que ainda não havia se beneficiado da ajuda do procurador: “Colega dele. Eu nunca”. Goulart explica: “Não, você especificamente já te ajudei em algumas coisas, mas…”.
Dando prosseguimento ao diálogo, Willer pergunta a Francisco: “Doutor Francisco, isso que você falou [ininteligível] do seu coração?”. Francisco questiona: “Do êxito aqui?”. Willer: “Não, que eu ganhei na Mega-Sena”. O executivo da JBS responde: “Porra, um honorário do c… [palavrão]!”.
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Em seguida, eles começam a discutir sobre o mérito da investigação: a avaliação dos fundos de pensão sobre o valor da Eldorado, que foi fundamental para definir e liberar os aportes. O procurador Ângelo Goulart afirma que o ideal seria convencer o procurador Anselmo Lopes, coordenador das investigações da Greenfield, de que a avaliação estava correta e não havia irregularidades. “O ideal era que ele achasse que R$ 550 [milhões] era o valor correto”, disse Goulart.
O executivo da JBS pergunta a Goulart se seria possível conversar com Anselmo sobre o “êxito”. O procurador responde que “ninguém” conseguiria falar sobre assuntos ilícitos com Anselmo: “Não, sobre êxito não, isso aí é impossível”. Segundo Goulart, a estratégia seria “trabalhar por outros meios”, convencendo Anselmo de que haveria “50 empresas para investigar” e era melhor deixar de lado a JBS.
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“Desde o princípio do aludido jantar, restou claro o empenho de Ângelo em atender aos interesses ilícitos que beneficiariam os líderes da organização criminosa que comandava o grupo J&F”, escreveram na denúncia os procuradores regionais Janice Ascari, Uendel Ugatti e Paulo Taubemblatt. Ao final da denúncia, eles resumem: “Ângelo, aliciado pelo advogado Willer, passou a atuar, enquanto membro da força-tarefa da Greenfield, em prol dos interesses da J&F, mediante aceitação e recebimento de vantagem indevida de R$ 50.000,00 por mês, bem como aceitou a promessa de receber percentual incidente sobre a redução dos valores que estavam sendo pleiteados”.
Procurada, a defesa de Ângelo Goulart ainda não respondeu aos contatos da reportagem. O advogado de Willer, Paulo Emílio Catta Preta, afirmou que “sua atuação se limitou à defesa processual da empresa Eldorado” e que as imputações da denúncia “se alicerçam em inferências e suposições açodadas construídas sobre diálogos isolados do contexto geral das conversas”. Apontou ainda que as conversas “demonstram a insistente e exclusiva provocação de crime por parte do colaborador [Francisco, da JBS]”.
Confira a íntegra da nota do advogado Paulo Emílio Catta Preta, que defende Willer Tomaz:
“A defesa de Willer Tomaz assevera que sua atuação se limitou à defesa processual da empresa Eldorado (pertencente a J&F), para qual foi regularmente contratado e constituído nos autos de investigação policial e medidas cautelares em curso contra a referida empresa. Também afirma que demonstrará a fragilidade das imputações veiculadas na denúncia, que se alicerçam em inferências e suposições açodadas construídas sobre diálogos isolados do contexto geral das conversas. Ademais, também se verifica que as próprias conversas – observadas no seu contexto amplo – demonstram a insistente e exclusiva provocação de crime de parte do colaborador, bem como acabam por desconstruir as acusações relativas a suposta obstrução às investigações, bem como desmentir as afirmações atinentes a qualquer suposta oferta de vantagem indevida a agente público”.
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