Análise: J&F economiza bilhões em leniência de 25 anos e sem juros

São Paulo – O acordo de leniência finalmente fechado na noite de ontem pelo grupo J&F chegou à cifra almejada pela força-tarefa do Ministério Público Federal (MPF) que cuidava de todas as investigações envolvendo as empresas da família Batista. O anúncio da multa de R$ 10,3 bilhões era questão de honra para o MPF e ajuda a aplacar um pouco da fúria que se formou na sociedade com a “superpremiação” obtida pelos Batista na pessoa física. No entanto, o prazo superdilatado de 25 anos para pagamento e uma correção apenas monetária, pelo IPCA, sem levar em conta qualquer taxa de juro, tornou as condições finais para o grupo bem mais favoráveis do que a pretendida inicialmente pelo MPF.

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Segundo o MPF, considerando-se o IPCA ao longo dos 25 anos de prazo, o valor presente de R$ 10,3 bilhões praticamente dobra, para R$ 20 bilhões. O IPCA também foi usado no financiamento da multa da Braskem. No caso da multa da Odebrecht, o parcelamento terá a incidência da Selic, mais caro. No caso da adoção do simples IPCA, o fator prazo passa a ter um peso ainda maior na conta final, uma vez que o custo do dinheiro para as empresas não corresponde apenas à correção pela inflação, vai bem além disso. Se tivesse que pagar a multa à vista, o grupo teria que se financiar no mercado para isso, como qualquer empresa ou pessoa, e a conta fatalmente subiria.

Simulações feitas pelo Valor Dataindicam que numa hipótese mais conservadora, o grupo economizará em juros ao menos R$ 17 bilhões. Esse cálculo considera uma taxa de juro real constante de 4% ao ano pelo prazo de 25 anos.

Na prática, quem está financiando o grupo com uma simples correção monetária são os beneficiários da multa: Funcef (25%), Petros (25%), Caixa (6,25%), FGTS (6,25%), União (12,5%) e BNDES (25%).

Mas o IPCA está longe de ser o custo de captação do grupo no mercado. Numa hipótese mais arrojada, tomando como base o balanço da holding J&F de dezembro de 2015, o último disponível, seu custo médio da dívida em reais estava em 14,7% a ano. Descontando a inflação e aplicando o juro real resultante sobre o valor da multa por 25 anos, chega-se a astronômicos R$ 86 bilhões em economia com juros para a holding. É claro que a tendência seria que a J&F buscasse alternativas mais longas e mais em conta de financiamento, provavelmente em dólar. Mas isso dependeria, claro, de acesso a crédito.

Se o acordo tivesse ficado nos dez anos de prazo de pagamento previstos inicialmente, a economia em juros para o grupo seria bem menor: R$ 5 bilhões no cenário mais conservador e R$ 15 bilhões no cenário mais arrojado.

http://amp.valor.com.br/financas/4987394/analise-jf-economiza-bilhoes-em-leniencia-de-25-anos-e-sem-juros

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