Lúcio Bolonha Funaro passou de potencial delator a delatado. Preso há quase um ano no presídio da Papuda, em Brasília, Funaro era a grande esperança dos procuradores do Ministério Público no Distrito Federal para conseguir colocar as mãos definitivamente sobre o empresário Joesley Batista e os negócios do grupo J&F.
Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!A expectativa era que, se ele delatasse tudo o que sabe, não restariam dúvidas de que os Batista pagaram propinas a políticos para obter recursos em condições vantajosas em bancos públicos e fundos de pensão de estatais.
Em conversas com procuradores da força-tarefa formada para dar conta das operações Sépsis, Greenfield e Cui Bono?, Funaro chegou a dizer que Joesley Batista era seu maior cliente e que, por essa razão, não o denunciaria. Agora, sabe-se pelo conteúdo da delação de Joesley Batista que Funaro vinha sendo remunerado para manter o silêncio. Nos últimos meses havia rumores de que ele poderia, finalmente, falar. Mas não houve tempo. O doleiro virou dano colateral na estratégia dos irmãos Batista de reduzir o impacto das investigações sobre o grupo.
O advogado de Lúcio Funaro, Fernando Guimarães, disse na noite de ontem ao Valor que foi surpreendido pela delação dos irmãos Batista. De acordo com ele, não estava em pauta com seu cliente a possibilidade de um acordo de delação. “Estive ontem [terça-feira] com o Lúcio e falamos de outras coisas, de um habeas corpus”. Ele também disse desconhecer qualquer pagamento dos Batista a Funaro. “Nem sei o que ele [Lúcio] teria para delatar”, disse.
Para os procuradores do MP-DF, o principal indício de que o grupo J&F tinha negócios escusos com Funaro era um contrato guarda-chuva que a holding mantinha com a Viscaya, empresa do doleiro, no valor de R$ 100 milhões. Sob esse contrato, o grupo emitia toda sorte de notas fiscais para Funaro. Até mesmo a Eldorado Celulose, empresa de celulose do grupo, fez pagamentos à empresa de Funaro. Segundo a empresa, o pagamento foi feito para honrar uma obrigação da holding J&F.
Apontado como operador de propina do ex-deputado Eduardo Cunha, Lúcio Funaro foi preso em 1 de julho do ano passado, na Operação Sépsis, um desdobramento da Lava-Jato, que investiga pagamentos de propinas para liberar recursos do FI-FGTS, gerido pela Caixa. Funaro entrou na mira do MP depois que Fábio Cleto, ex-presidente da Caixa apontado por Cunha, o indicou em sua delação como o operador da propina entre grupos empresariais e o ex-deputado.
Ao embasar o pedido de prisão de Funaro, o procurador geral da República, Rodrigo Janot, disse que o doleiro tinha o crime como “modus vivendi”. “Apareceu no escândalo do Bancoop, afirmando que o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, cobrava propina para intermediar negócios com fundos de pensão em favor do partido. Funaro também foi envolvido no caso Banestado e na Operação Satiagraha, na qual chegou a ser preso.
Da mesma forma, Funaro foi diretamente envolvido no caso mensalão, responsável por repassar valores da SMP&B (empresa de Marcos Valério) “ao antigo Partido Liberal, em especial a Waldemar da Costa Neto, por intermédio de sua corretora Guaranhuns”, escreveu Janot no documento.
Ao ser questionado se seu cliente virara “dano colateral”, o advogado Fernando Guimarães respondeu que “amanhã é outro dia”.
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