A criação de uma nova política de precificação de derivados é um passo importante para que a Petrobras consiga superar um obstáculo que muitos consideravam intransponível dentro da estratégia de venda de ativos posta em prática pela companhia: o objetivo de encontrar parceiros para a área de refino. A estratégia, revelada no Plano de Negócios da companhia divulgado em 20 de setembro, encontrava um entrave básico, já que a estatal é dona de todas as refinarias de grande porte do país, o setor de downstream é por definição operado com margens de lucro baixas e há um histórico recente de venda de combustíveis abaixo dos preços internacionais.
Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!Não à toa, desde que assumiu, o atual presidente da estatal, Pedro Parente, repete o mantra de que a definição dos preços praticados pela empresa caberá apenas aos conselheiros e principais executivos da petroleira. Por diversas vezes, Parente afirmou que essa condição foi determinante para que ele aceitasse o cargo de principal executivo da companhia.
Na decisão anunciada na sexta-feira, ao mesmo tempo em que reduziu o preço do diesel em 2,7% e o da gasolina em 3,2%, a companhia definiu uma política de preços baseada na paridade internacional, já com a inclusão de custos de transportes, e em uma margem para remuneração dos riscos da operação, como volatilidade do câmbio.
O anúncio foi uma pedra fundamental para que o mercado comprasse em definitivo a ideia de independência da estatal para definir os preços dos principais produtos que vende. E de quebra abre a possibilidade de atração de parceiros para a área de refino.
“Mesmo com a perda de Ebitda [lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização] no curto prazo, a divulgação de uma fórmula é positiva para a Petrobras”, afirmam os analistas Luiz Carvalho e Julia Ozenda, do UBS. A queda dos preços dos combustíveis deve ter impacto negativo de US$ 300 milhões no Ebitda do quarto trimestre da estatal, segundo o banco.
Para a consultoria Eurasia Group, uma política mais transparente foi guiada pela vontade da petrolífera em ganhar mais credibilidade e deixar os ativos de refinaria mais atrativos. “Uma fixação de preços mais transparente pode facilitar a estratégia de atrair parceiros para a compra de seus ativos no setor de refinaria. Em seu último plano de negócios, a empresa aumentou a meta de desinvestimentos de US$ 15 bilhões para US$ 19 bilhões em dois anos.”
Em setembro, o diretor de refino e gás natural da petrolífera, Jorge Celestino, já havia dito que o programa de desinvestimentos e parcerias da empresa para o período 2017-2021 incluía a oferta de ativos de refino. O modelo vem sendo analisado pela companhia, mas sem uma definição até agora.
A nova política de preços pode “sem dúvida atrair investidores” para a área de refino da Petrobras, afirma Hélder Queiroz, do Grupo de Economia de Energia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (GEE/UFRJ) e ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP).
A medida garante ainda que a companhia não vai sofrer novos prejuízos relacionados à defasagem dos preços de combustíveis. “Em primeiro lugar, foi a falta dela o grande responsável pela enorme destruição de valor no passado, já que houve longos períodos de preços abaixo da paridade e que efetivamente causaram queima de caixa significativa para a empresa”, dizem os analistas Rodolfo Angele e Felipe dos Santos, do J.P. Morgan, em relatório.
Além dos benefícios para o segmento de refinaria, o anúncio da estatal é considerado um passo importante para o aumento da governança da companhia. Também é um sinal de menor preocupação com a situação financeira, dado o impacto que a diminuição dos preços deve ter nos resultados, segundo a Eurasia.
Queiroz, que considerou inédita a iniciativa da petroleira para os preços dos derivados, pondera, no entanto, que as reduções de 2,7% para o diesel e de 3,2% para a gasolina, em vigor desde sábado, foram insuficientes para acabar com a diferença frente aos preços internacionais dos derivados. “Temos que ver que em algum momento temos que caminhar na direção desse alinhamento, até porque o preço internacional também vai subir e você pode vir a ter reajuste para cima também”, diz.
A redução concedida pela Petrobras diminuiu um pouco a diferença entre os preços cobrados no país e os valores internacionais. Segundo cálculos do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), a gasolina, que estava 15% mais cara aqui, passou a um patamar de preço 12% superior frente aos preços internacionais, enquanto a diferença no diesel caiu de 25% para 22%.
“É claro que todo mundo sabe que os preços flutuam de acordo com os preços internacionais, mas aqui os preços não estavam flutuando e essa era uma incerteza grande”, diz Queiroz, comparando a atual gestão com a administração petista. “E aí os parceiros numa refinaria não sabem que preços podem praticar”, acrescenta.
A paridade depende do preço internacional, mas também da taxa de câmbio, esclarece Queiroz, e a Petrobras ainda não divulgou uma fórmula paramétrica para esclarecer o caminho pelo qual, por exemplo, a companhia chegou aos valores de redução do diesel e da gasolina. Ele elogia, porém, a previsibilidade que as novas regras de preços podem trazer ao mercado. “Se você quer que outros parceiros entrem, se o governo quer que outros agentes econômicos invistam nesse setor, o ponto número um, aquele que é indispensável, é ter uma clara sinalização do processo de formação de preços. Sem isso ninguém entra”, afirma.
O analista de energia da Tendências, Walter de Vitto, pondera ainda que a Petrobras não foi objetiva quanto às regras para determinar os valores dos derivados, o que pode trazer alguma imprevisibilidade quanto à definição dos preços. Por outro lado, a garantia, pela diretoria da empresa, de que os preços serão praticados conforme os parâmetros externos é positiva. “A regra não foi explicitada. Tem uma regra baseada em alguns princípios. Mas isso dá grande discricionariedade na questão dos preços. Achava que esta gestão seria mais objetiva”, diz o especialista.
O mercado reagiu positivamente ao anúncio. As ações da Petrobras fecharam a sexta-feira em alta – as preferenciais subiram 3,17%, para R$ 16,26, e as ordinárias avançaram 2,29%, para R$ 17,90.
http://www.valor.com.br//empresas/4745591/petrobras-da-passo-para-atrair-socios-em-refinarias
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