O presidente da Petrobras recebeu a Brasil Energia Petróleo e falou de conteúdo local, gestão, regulação, desinvestimentos, entre outros temas
[13.10.2016] 16h41m / Por Cláudia Siqueira e Felipe Maciel
Pedro Parente está completando 150 dias no comando da Petrobras ( Agencia Petrobras /Stéferson Faria )
O vascaíno Pedro Parente está completando em outubro cinco meses à frente da maior empresa do Brasil. Em 150 dias vem fazendo uma revolução silenciosa na estatal, trabalho já admirado por uns e odiado por outros. Tem se exposto pessoalmente em discussões com funcionários da petroleira e não tem medo de temas polêmicos. O presidente da Petrobras recebeu a Brasil Energia Petróleo no pacato escritório da Petrobras na Avenida Paulista, coração econômico de São Paulo. Falou de conteúdo local, da necessidade de mudança cultural dentro da empresa, de desinvestimentos e deixou claro: nosso foco agora é águas profundas.
O sr. tem dito nas apresentações do novo Plano de Negócios que o setor petróleo pode responder rapidamente com investimentos. O que é preciso para isso?
O setor petróleo é o que, de fato, pode responder rápido a uma mudança regulatória adequada. O governo está muito interessado. O Ministério de Minas e Energia está muito interessado. As mudanças estão prontas para vir. As águas profundas brasileiras são de excelente qualidade. Só depende de nós. Depende do Brasil. A resposta, no meu modo de ver, é muito rápida.
Mas muito rápido significa exatamente o quê?
Para que esses investimentos aconteçam são precisos dois pré-requisitos, que são alternativos e podem ser complementares. Um dos requisitos é que a Petrobras continue seu programa de parcerias e desinvestimentos. E isso nós vamos continuar. Como registramos no Plano de Negócios, se os parceiros investirem aquilo que a Petrobras investiria se tivesse dinheiro, o que obviamente é um bom pressuposto, eles investirão cerca de US$ 40 bilhões nos próximos dez anos. Um pré-requisito para uma resposta rápida é a continuidade do nosso programa de parceria e desinvestimentos.
Outra contribuição, e isso depende do governo, é o programa de leilões voltar com regularidade. Acontecendo os leilões, voltam os investimentos. A mudança do quadro regulatório é necessária, mas não será suficiente. É preciso haver a mudança do quadro regulatório, a continuidade do programa de parcerias e desinvestimentos e/ou leilões por parte do governo federal.
A mudança regulatória ajuda também no desinvestimento?
Sem dúvida. Quando passa a ter uma política de conteúdo local na linha do que defende o IBP. E nós estamos totalmente associados àquela linha. É preciso resolver o problema da taxação no Rio de Janeiro. É preciso ter uma abordagem por parte dos órgãos regulatórios que seja mais pró-business. Isso tudo naturalmente aumenta o valor dos ativos.
Por isso o senhor vem defendendo um nome pró-business para a sucessão de Magda Chambriard?
A agência existe para corrigir eventuais distorções de mercado. Se não há pessoas lá que entendam a natureza das restrições que são próprias de uma empresa, de um negócio, terá a tendência, para evitar as distorções de mercado, de exagerar a mão. É necessário alguém que conheça as restrições, as dificuldades, as questões do dia a dia. Ter uma agência que tenha seus diretores e a direção-geral conhecendo as restrições da operação de uma empresa é fundamental. Não basta o conhecimento. É preciso a experiência.
E a mudança cultural dentro da Petrobras? Como fazer?
Uma coisa que aprendi é que a cultura das organizações pode ser gerenciada. Não posso conduzir completamente uma cultura, numa direção única. Mas posso influenciar o desenvolvimento daquela cultura. Acho que uma das grandes obrigações de lideres de organizações hoje, e não me refiro somente as empresas, é saber primeiro que a cultura existe, quer você queira ou não, e que é possível influenciar. Não por um projeto e sim por um processo. A evolução da cultura de uma organização é um processo tão relevante quanto os demais dentro de uma empresa. É possível fazer isso.
Em sua gestão, todos se chamam pelo nome e não pelo título. Isso significa uma mudança profunda na Petrobras…
Ela é intencional, porque uma das características culturais da Petrobras é um comportamento hierárquico muito extremado, pelo qual a distância ajuda a impedir que o subordinado faça um debate sobre um determinado assunto. Nós achamos que essa distância precisa diminuir porque a existência do debate, até que uma decisão seja tomada, é fundamental para reduzir o risco do processo decisório. Não gosto pessoalmente desse tratamento cerimonioso, mas é uma coisa importante dentro da empresa, e vocês que cobrem o setor há tanto tempo sabem disso.
E o medo e o travamento que a Lava Jato trouxe para dentro da empresa? Como reverter isso?
Essa questão é muito relevante. O que notamos é que essa questão é compreensível, mas isso é complicado para a empresa. Não faço aqui uma crítica aos médios gerentes da empresa, mas registro uma preocupação, dado esse medo. Quando comparamos os elementos da gestão do setor público e do setor privado começamos pelo princípio jurídico básico, que no setor privado é um e no setor público é outro. Eles parecem semelhantes, mas são completamente diferentes. O princípio jurídico do setor privado é que se pode fazer tudo que não está proibido por Lei. No setor público, o princípio é que só se pode fazer o que está previsto na Lei. É completamente diferente. Por ser uma empresa estatal, os incentivos são todos na direção do não fazer. Se eu não fizer continuo tendo as promoções periódicas, ainda vou me aposentar com um fundo de pensão interessante. E se eu fizer? Se eu fizer posso, eventualmente, tomar uma decisão que, embora tenha o objetivo de resolver um problema, não tenha seguido todas as formalidades, e isso pode me dar um problema no futuro. Meus bens podem ficar a perigo. Minha reputação pode ficar a perigo. Naturalmente, no setor público já existe uma situação como essa. Na Petrobras, por causa da Lava Jato, das investigações, isso ainda é mais agravado. Não é incomum que você pegue pareceres de gerentes que fazem apontamentos de riscos que às vezes não têm probabilidade razoável. Mas, com essa preocupação, eles fazem uma lista extensiva de riscos e jogam o problema para o diretor, que tem de tomar uma decisão. A empresa não pode parar. Você tem de tomar decisões difíceis. Precisamos de fato lidar com esse processo. É uma preocupação nossa.
Como melhorar a relação com os fornecedores, também abalada pela Lava Jato?
Vamos melhorar essa relação à medida que o processo de melhoria da governança, dos mecanismos de integridade, da conformidade, se estenda ao longo da cadeia e se torne uma prática comum que a Petrobras não precise ser o freio. Quando chegar um fornecedor com esses padrões, vai ser aceito muito mais rapidamente.
A cadeia de fornecedores está com algum receio de a Petrobras estar desistindo de fazer as coisas no Brasil. É isso?
Nós achamos que é muito válido ter uma política de conteúdo local. Mas uma política que emancipe os fornecedores brasileiros para que eles tenham condições de competir internacionalmente. Não é uma política que possa ter percentuais crescentes, isso gera reserva de mercado, e é um estímulo à falta de competitividade. Se existe uma empresa como a Petrobras, obrigada a comprar tudo com 80% de conteúdo nacional, para que ser competitivo?
Como anda o programa de desinvestimento no refino?
Estamos analisando qual será a modelagem. Este é um setor em que temos 99%. Precisamos fazer as coisas com muito cuidado, porque é diferente fazer um desinvestimento em um setor em que se tem um market share de uns 10% a 15% ou em um setor no qual se tem 100%. É necessário pensar bastante, para que se faça uma modelagem que não desorganize o setor. Isso está em andamento.
O melhor do desinvestimento e da parceria ainda está por vir? Há muita mais coisa por vir?
Olha, temos de completar US$ 19,5 bilhões e mais US$ 5 bilhões que ainda faltam da nossa conta desse ano, o que dá US$ 24,5 bilhões, mas não diria que um projeto como o da NTS é pequenininho… US$ 5 bilhões é um projeto importante. Arriscaria dizer que está entre as três maiores vendas/privatizações.
O que esperar da Petrobras em terra?
Nosso foco é em águas profundas.
Mas podemos ver a Petrobras saindo da produção de petróleo em terra?
Acho que progressivamente sim, o que não quer dizer que, no futuro, avaliando os leilões que venham a ser ofertados, não possamos avaliar que há uma área que devemos bidar. O plano, porém, é claro, e acho muito importante que o plano estratégico diga o que vai fazer e o que não vai fazer.
Pode-se esperar então um segundo Topázio mais adiante?
Não quero ser taxativo em relação a isso, o que posso dizer é que estaremos sempre fazendo uma visão de portfólio, focando nossa prioridade que é águas profundas. Portanto, seria natural que isso acontecesse? Seria. Vai acontecer? Não posso dizer isso agora.
Como se dará a saída do mercado de biocombustível? A Pbio será vendida com suas usinas?
É preciso olhar a natureza dos ativos. Há ativos que, por sua natureza, são mais fáceis de vender o próprio ativo, como as participações em empresas de etanol, onde há inclusive o direito de preferência para os sócios. Nessa circunstância, é natural que ocorra primeiro a tentativa de venda do ativo. Já outras questões são mais complicadas, como a plantação de palma, por exemplo. Estamos avaliando como resolver isso e temos um sócio. Ainda bem que temos um sócio. Como a gente sempre lembra, a parceria é boa porque reduz o risco e, nesse caso, reduz o risco à metade. Imagina se fôssemos só nós? E um sócio supercorreto… a Galp, sempre muito presente, da qual somos parceiros em outras coisas. Vejo que, nesse caso, cada caso será um caso.
Em alguns colocações do sr. percebe-se um discurso da Petrobras como um ente fora do governo. A Petrobras de Pedro Parente não será um ente de política pública?
De alguma maneira, é procedente a percepção de vocês no sentido de que a Petrobras é uma empresa, uma empresa de propriedade do governo, mas é uma empresa e, como tal, tem certas regras que ela tem de seguir, inclusive bem definidas na Lei das S.A.s. É verdade que ela tem de atender aos objetivos públicos ou de interesse público que justificaram a sua criação, mas isso não pode ser feito de maneira nenhuma de forma desatenta à geração de resultados, porque o que garante que vamos cumprir de maneira sustentável, ao longo do tempo, por décadas a fio, a função social ou de interesse público da Petrobras é que ela seja financeiramente sustentável. Já disse no meu discurso que não vejo contradição entre uma coisa e outra, mas nós somos uma empresa e, nesse sentido, é fundamental e é uma regra básica que se separe as funções. O governo é que tem funções regulatórias, é o governo que tem funções fiscalizatórias e nós temos de desenvolver uma atividade empresarial, que precisa gerar o melhor retorno possível para os seus acionistas, sem desatender aos objetivos sociais e de interesse público que determinaram a criação da companhia.
Em uma das apresentações do PN, o sr. disse que não estaria na Petrobras depois de dois anos. Isso é uma decisão tomada de só ficar até 2018?
Isso é uma avaliação de prudência, porque não me compete decidir se eu continuo ou não quando o novo governo tomar posse, quando mudar a liderança do acionista controlador. O natural é que esse seja o período e é o período que eu conto.

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