Repensando o mercado petrolífero

Os preços do petróleo caíram cerca de 65% desde seu pico em junho de 2014, e agora há um intenso debate sobre os porquês. Uma coisa que sabemos com certeza é que o mercado do petróleo sofreu mudanças estruturais, tornando este recente episódio diferente das enormes flutuações de preços anteriores.

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O colapso dos preços foi motivado em parte por fatores do lado da oferta. Estes incluem o rápido aumento da produção de energia do xisto nos EUA, em anos recentes, e da decisão do governo americano de extinguir a proibição vigente há 40 anos, de exportação de petróleo bruto. Além disso, a produção de petróleo de países devastados pela guerra, como a Líbia e o Iraque, superou as expectativas, e o Irã voltou aos mercados petrolíferos do mundo na esteira do acordo nuclear com as grandes potências. E a Arábia Saudita, maior membro da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), aumentou a produção para defender sua participação no mercado.

Em vista desse excesso de oferta de petróleo, muitos analistas se perguntam se a Opep ainda é relevante. A elevada demanda por petróleo a partir de 2000 deu à Opep, e à Arábia Saudita em especial, influência significativa sobre os preços, mas também estimulou investimentos em métodos de produção de alto custo em outros países, como a mineração nas areias petrolíferas do Canadá e na extração de petróleo em águas ultraprofundas no Brasil.

O setor de produção de óleo de xisto incorporou melhorias de eficiência operacional por meio de tentativa e erro. Mas o custo de produção do xisto agora vai subir novamente porque esses ganhos de eficiência significativos não são sustentáveis e o custo do capital é alto

Devido ao tempo decorrente entre investimento e produção convencional de petróleo, esses projetos em países não pertencentes à Opep atingiram o pico praticamente ao mesmo tempo em que o mercado petrolífero começou a desacelerar e quando as expectativas sobre a demanda futura de petróleo começaram a perder fôlego.

Essa dinâmica levou a Opep a mudar sua reação a flutuações nos preços. No passado, a Opep, e a Arábia Saudita costumavam estabilizar o mercado cortando a produção quando os preços caíam muito e aumentavam a produção quando os preços subiam demais em relação ao preço alvo da Opep. Desta vez, porém, numa reunião da Opep em novembro de 2014, a Arábia Saudita vetou uma moção dos outros membros no sentido de reduzir a produção em resposta à queda dos preços.

Em vez disso, os sauditas incrementaram a produção, o que resultou em uma enorme pressão sobre os produtores não pertencentes à Opep, que operam a custos mais elevados. A Arábia Saudita parece estar agindo em função de lições aprendidas a partir de um evento de flutuação de preços, em 1986, quando enormes cortes sem precedentes na produção, em resposta ao aumento da produção por parte de países não membros da Opep, não conseguiram estabilizar os preços do petróleo.

Outro fator que está mantendo os preços baixos é que os produtores não pertencentes à organização reduziram seus custos. Esse, porém, é provavelmente um evento não recorrente. Em princípio, o custo de produção do petróleo é geralmente assumido como constante e determinado por fatores imutáveis, tais como o tipo de petróleo e as condições geográficas de onde é extraído.

Na prática, porém, a estrutura de custos depende de uma série de outros fatores, como melhorias tecnológicas, experiência humana e assim por diante. Assim, no caso da produção de óleo de xisto, o setor parece ter incorporado melhorias significativas de eficiência operacional por meio de tentativa e erro – ou seja, “aprender fazendo”. As empresas passaram a dominar rapidamente os melhores métodos à medida que a produção de petróleo de xisto foi amadurecendo em seu ciclo de investimentos. Mas o custo de produção do xisto agora vai subir novamente, porque esses ganhos de eficiência significativos não são sustentáveis e o custo do capital é alto.

Dito isso, uma característica definidora do “novo mercado de petróleo” resultante do advento do petróleo de xisto são ciclos de preços mais curtos e mais limitados para o petróleo. Na verdade, a produção de petróleo de xisto requer um nível mais baixo de custos irrecuperáveis do que a de petróleo convencional, e a defasagem entre o investimento inicial e a produção é bem menor.

É tentador analisar os preços do petróleo no longo prazo -que aumentaram gradualmente entre 2000 e 2014, e então caíram abruptamente após a reunião da Opep em novembro de 2014 – para prever aonde os preços irão daqui para a frente. No entanto, os contratos futuros apresentam várias limitações.

Para início de conversa, os contratos futuros não ajudaram a prever o atual desequilíbrio no mercado, muito provavelmente porque os mercados futuros de longo prazo demoram a se ajustar a novas informações.

Além disso, os contratos futuros proporcionam um balizamento apenas limitado para o médio prazo, porque não se estendem suficientemente ao futuro ou os mercados não são suficientemente profundos.

Assim como em outros mercados de commodities, os contratos futuros de petróleo estão sujeitos a um desequilíbrio entre as posições de longo e curto prazo. Por exemplo, há uma demanda maior, entre os produtores de petróleo, por cobertura de curto prazo, do que entre fabricantes, por posições de longo prazo. Os produtores tipicamente se dispõem a aceitar preços relativamente mais baixos para cobrir os riscos, porque eles não conseguem repassar os aumentos de custos a seus clientes. Os fabricantes, por outro lado, têm mais flexibilidade a este respeito, porque, mesmo em processos de manufatura intensivos em energia, o petróleo ainda é apenas uma pequena parte da estrutura mais ampla de custos de uma empresa.

Alguns dos fatores que influenciam os preços do petróleo listados acima são temporários, mas outros são estruturais e permanentes. O debate sobre as causas e efeitos da queda de preços a partir de 2014 continuarão, o que reflete e reforça um ponto fundamental: a “sabedoria convencional” sobre o mercado mundial petróleo deixou de vigorar. (Tradução de Sergio Blum)

Rabah Arezki é diretor da Unidade de Commodities do Departamento de Pesquisa do FMI.

http://www.valor.com.br//opiniao/4740695/repensando-o-mercado-petrolifero

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