Os Ministro Quintela, dos Transportes: “Esse entendimento é o melhor caminho” aeroportos concedidos à iniciativa privada vão ganhar um prazo extra para pagar suas parcelas anuais de outorga ao governo sem o risco de sofrer punições mais severas. As concessionárias de Guarulhos, Brasília e Viracopos tinham até amanhã para pagar R$ 1,4 bilhão aos cofres públicos, mas já haviam comunicado à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) que lhes faltava dinheiro em caixa para fazer os depósitos.
Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!Na tentativa de contornar uma situação de impasse, o governo interino de Michel Temer concordou em receber a outorga de cada concessionária apenas em dezembro. De um lado, as empresas se comprometeram a fazer o pagamento com juros e multa de 2% no fim do ano. Do outro, o Ministério dos Transportes e a Anac assumem formalmente o compromisso de não abrir processos de caducidade das concessões – penalidade mais dura fixada nos contratos. Um ofício com essa garantia será remetido às operadoras dos aeroportos nesta semana.
O entendimento valerá também, de forma retroativa, para o Galeão (RJ) e de Confins (MG). A concessionária responsável pelo aeroporto carioca, sob controle da Odebrecht Transport, havia deixado de pagar R$ 934 milhões em abril. O grupo CCR, que administra o terminal mineiro, obteve uma liminar judicial para pagar R$ 76 milhões em juízo.
Na prática, o governo se livra de uma armadilha que poderia criar para si próprio. Em meio aos esforços para atrair mais investidores, abrir processos de cassação das concessões seria o pior gesto possível. As concessionárias, por sua vez, afastam a insegurança jurídica provocada por uma situação de inadimplência. Isso poderia deixá-las inabilitadas para participar dos próximos leilões e com incertezas regulatórias em seus ativos.
Para não prejudicar a meta fiscal de 2016, o governo só faz questão de receber esses valores até dezembro. A outorga dos aeroportos vai para o Fundo Nacional de Aviação Civil, que tem sido contingenciado e usado para cobrir o rombo das contas públicas.
“Esse entendimento é o melhor caminho”, disse ao Valor o ministro dos Transportes, Maurício Quintella. “A gente acalma o mercado, mas sem detrimento da questão fiscal, que é importante.”
Os dois lados têm interesse em ganhar tempo. As concessionárias esperam resolver três problemas diferentes antes dos desembolsos. Elas encaminharam à Anac pedidos de reequilíbrio econômico-financeiro dos contratos, mas não houve análise até agora. Também não se acertaram com a Infraero por obras inacabadas nos terminais herdados da estatal quando assumiram sua gestão. E, por fim, o financiamento de longo prazo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ao Galeão está travado.
Já a Infraero não teria disponíveis, hoje, os recursos necessários para entrar com sua parte da outorga nos aeroportos privatizados. Ela detém 49% de participação acionária. Há setores no governo que defendem que simplesmente não haja mais aportes da estatal nas sociedades que administram as concessões. Isso faria diminuir sua fatia societária.
Quintella é contra essa alternativa e espera obter o dinheiro da Infraero necessário para pagar a outorga em dezembro. Ele continua defendendo a possibilidade de venda dos 49% da estatal nos aeroportos privatizados, mas descarta a operação ainda em 2016.
Para o ministro, como serão leiloados outros quatro terminais nos próximos meses, a oferta das participações acionárias da Infraero poderia sobrecarregar o mercado com um excesso de oferta e acabar desvalorizando os ativos. Os aeroportos de Fortaleza, Salvador, Porto Alegre e Florianópolis deverão ser licitados até o fim do ano. A estatal não terá mais participação em nenhum deles.
O governo também mudou as regras de pagamento da outorga para esses quatro aeroportos. As empresas vencedoras terão que desembolsar 25% dos lances vencedores no momento da assinatura dos contratos. Depois, terão cinco anos de carência e voltam a pagar no sexto ano, com parcelas inicialmente mais suaves e que vão crescendo ao longo do tempo.
O presidente interino Michel Temer afirmou, em entrevista ao jornal “Folha de S. Paulo” publicada no domingo, que é “possível” que o governo privatize também dois dos principais aeroportos do país: Congonhas (SP) e Santos Dumont (RJ). Ele disse que a iniciativa será estudada, acrescentando que nem ele nem a equipe econômica têm resistências ao tema – diferentemente do que ocorria no governo do PT.
Segundo Quintella, a concessão dos dois aeroportos está em uma fase muito inicial de avaliação e não entrará no lote de privatização dos outros quatro empreendimentos previsto para ocorrer no segundo semestre deste ano. “É uma intenção preliminar. O governo está fazendo uma avaliação dos ativos mais importantes, o que pode fazer dinheiro entrar em caixa, mas não tem data para ocorrer nem decisão de que será feito. Muito menos em que modelo ocorreria”, disse.
O estudo surgiu devido a uma demanda do Ministério da Fazenda sobre como atingir a meta fiscal de 2017 – um déficit de R$ 139 bilhões – sem aumentar impostos. De acordo com o ministro, porém, qualquer discussão a respeito da privatização de novos aeroportos demandará estudos do impacto da decisão sobre a Infraero, que hoje trabalha com um Plano de Demissão Voluntária (PDV) e renegocia contratos para reduzir despesas.
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