Parente descarta capitalização na Petrobras

Por Cláudia Schüffner e Rodrigo Polito

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Pedro Parente assumiu a presidência da Petrobras oficialmente ontem com um discurso que deverá afastar as preocupações sobre o ritmo com que iria tomar conhecimento dos desafios que o esperam na empresa de petróleo mais endividada do mundo. Não se esquivou de temas espinhosos, a começar pela capitalização da empresa, à qual se mostrou contrário.

Primeiro, disse, porque a capitalização “joga nas costas do contribuinte brasileiro a solução de um problema que ele não ajudou a criar”. Em segundo porque “seria desconhecer o gravíssimo quadro fiscal que o país enfrenta”. E em terceiro lugar citou “dificuldades que poderão ser de difícil superação prática”, já que isso exigiria participação dos demais acionistas para não serem diluídos. A solução, segundo Parente, é encontrar saídas que não sejam uma injeção direta de capital pelo Tesouro Nacional.

A única pista que deu sobre o plano para recuperar a saúde financeira da empresa é de que ele pode requerer alterações legais ou regulamentares que dependem do apoio do governo para darem resultado. E cobrou dos governos federal e estaduais estabilidade regulatória. Fez questão de reforçar que o propósito é equacionar a dívida de modo a reduzir custos sobre as novas dívidas e acelerar a exploração do pré-sal.

Ao mencionar desinvestimentos, disse que a companhia está aberta a parcerias, que elas são fundamentais e que poderão ajudar a “captura de valor” do conjunto de ativos da Petrobras, enfatizando que não quer trazer “dogmas” para a discussão. O objetivo é revisar em até 120 dias a estratégia da companhia, que tem US$ 22 bilhões em caixa e vai investir cerca de US$ 20 bilhões este ano.

Parente fez análise abrangente dos problemas que a companhia enfrentou nos últimos anos, mostrando que no curto espaço de tempo entre o convite, aceitação do cargo e as reuniões com executivos, captou os grandes temas.

Em seu discurso, deixou clara, pela primeira vez em sete anos, a opinião de um presidente da estatal sobre a polêmica lei que deu à Petrobras a exclusividade na operação do pré-sal. Disse que a empresa apoia a revisão da lei, com a substituição da obrigação de participar com no mínimo 30% dos projetos, pelo direito de preferência. Segundo Parente, a lei não atende aos interesses da companhia e nem do país. Mencionou duas razões, a primeira delas a situação financeira da Petrobras – cuja dívida líquida em março atingiu US$ 103,8 bilhões – e a segunda de natureza estrutural.

“Se essa exigência não for revista, a consequência será retardar sem previsão e exploração plena do potencial do pré-sal. Mas a razão mais relevante tem natureza estrutural, essa obrigação retira a liberdade de escolha da empresa de somente participar na exploração e produção dos campos que atendem o seu melhor interesse”.

O executivo continuou dizendo que participar de empreendimentos considerados não prioritários ou mesmo sem viabilidade econômica seria “imperdoável”, considerando que a empresa tem ações em bolsa e “milhares de acionistas”.

Mencionou também a imagem da Petrobras. Disse que empresa foi vítima de “uma quadrilha organizada para obter os mais escusos, desonestos, antiéticos e criminosos objetivos”. Também afagou o ego ferido dos funcionários ao dizer que “uma minúscula minoria envergonhou a imensa maioria de colaboradores” da empresa.

Ao citar a participação da Petrobras em projetos irrealistas “seja sob o ponto de vista de prazo de conclusão, de seus custos finais e pelas premissas utilizadas” lembrou que essa combinação junto com a corrupção levaram a explosão da dívida, que correspondia a 100% da geração de caixa operacional em 2010, ano da capitalização, e aumentou para mais de 400% no fim de 2014, quando foi atingida pelas investigações da Lava-Jato.

“Em grande parte, por força dessa explosão, a empresa paga taxas de juros sobre a sua dívida nova muito acima de seus concorrentes, e diversos outros indicadores, como o Credit Default Swaps (CDS) e os ratings da empresa são muito piores que os dos concorrentes”, disse.

Lembrou adiante que apenas um terço da dívida acumulada pode ser atribuída à exploração do pré-sal, já que 45% dos investimentos após a capitalização foram direcionados para projetos de “downstream”, aí incluídas as grandes refinarias que não trouxeram retorno compatível com o custo de capital.

Na entrevista, disse que vai manter a diretoria e pediu que o presidente do conselho de administração da Petrobras, Luiz Nelson Carvalho, respondesse sobre as críticas feitas pela Federação Única dos Petroleiros (FUP) sobre sua passagem no governo FHC. A FUP chegou a enviar carta aos membros do conselho dizendo que Parente não deveria ser aprovado já que responderia a “ação por improbidade administrativa e que no passado causou prejuízo de mais de US$ 1 bilhão”, à Petrobras.

Carvalho foi irônico ao responder dizendo que ficou feliz “ao saber que os petroleiros estão preocupados com os prejuízos causados na empresa” completando que talvez a situação não tivesse chegado a tal ponto “se tivessem tido essa preocupação mais cedo”. Antes disso, esclareceu que o nome de Parente foi avaliado de acordo com as novas regras de governança, conformidade e integridade.

No evento, que encheu mas não lotou o auditório da Petrobras, ficou evidenciada uma divergência entre a visão do novo presidente e a do ministro de Minas e Energia, Fernando Bezerra Filho, com relação à política de preços dos combustíveis praticada pela estatal.

Quando questionado se a influência do governo na formação de preços estava totalmente descartada, o ministro respondeu que não. “Isso aí, na verdade, a gente vai ter oportunidade de discutir. Não é só ministério de Minas e Energia. É [ministério do] Planejamento, [ministério da] Fazenda. E a própria diretoria que está chegando. E no momento oportuno falaremos sobre isso”, disse.

Parente tinha acabado de fazer um discurso onde fez questão de frisar que a responsabilidade social da Petrobras não deve se confundir com as do Estado brasileiro. “Essa é a determinação da Lei do Petróleo, de 1997, que assegura a desregulamentação dos preços e a independência financeira e operacional da empresa”, disse.

Mais tarde, quando questionado sobre a disparidade de afirmações, Parente se disse tranquilo porque, segundo ele, tocar a empresa de forma independente foi condição negociada com o presidente interino Michel Temer para aceitar o cargo. “Essa foi a premissa que me fez aceitar [o cargo]”.

http://mobile.valor.com.br/empresas/4587639/parente-descarta-capitalizacao-na-petrobras

 

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