A Petrobras vive um momento decisivo de sua trajetória. A empresa tenta resgatar suas finanças no momento em que enfrenta uma crise de credibilidade provocada pelo alto endividamento, por perdas com dinheiro desviado pela corrupção e a reavaliação do patrimônio relativo a obras superfaturadas. Qual será a estratégia da empresa quando as principais companhias do setor no mundo adotam medidas para se proteger de um cenário onde o petróleo está perdendo valor como fonte energética? Para onde a Petrobras sinaliza que irá depois do Acordo de Paris (CoP-21), que mostrou uma direção nova de transição para um mundo menos intensivo em carbono?
Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!A reformulação do estatuto da empresa, votada na Assembleia Geral Extraordinária de 28 de abril, não traz, infelizmente, nenhuma indicação de resposta a estas perguntas. O presidente da Petrobras, Aldemir Bendine, tem reafirmado que a exploração do pré-sal permanece como foco prioritário da companhia, devido a seu suposto custo-benefício. Não se fala em mudança nem mesmo no investimento a longo prazo de parte do lucro obtido com a exploração de petróleo em energias renováveis. Nesse aspecto, a política não muda muito em relação ao passado recente, quando o Brasil ainda não havia assinado o acordo climático global e ainda se desconhecia o rombo da empresa.
A incestuosa relação da gestão da Petrobras com campanhas políticas levou à propagação do mito de que os recursos do pré-sal seriam o “passaporte para o futuro” do país, independentemente de outras fontes de energia, como o etanol da cana, a solar e a eólica. Mas esse mito começa a cair quando analisamos o atual cenário de preço global de petróleo, os cenários futuros de demanda e as reservas que a empresa tem.
A Petrobras deve agir como uma empresa do setor de energia e não como uma de um único e arriscado negócio
A estatal insiste na viabilidade técnica e econômica do pré-sal “mesmo considerando o atual cenário adverso dos preços do petróleo”. Ocorre que a ampliação de investimentos no pré-sal com o preço do barril abaixo de US$ 40 é de altíssimo risco. Em seu planejamento estratégico, a Petrobras afirma que o preço mínimo para viabilizar economicamente a produção nessa camada geológica é de US$ 45. A companhia destaca que possui campos de petróleo em atividade cujos investimentos já foram amortizados e que, portanto, poderiam se sustentar com o valor do brent de US$ 30 por até três anos.
Ainda é muito, segundo alguns especialistas. Para o enviado especial do Reino Unido para mudanças climáticas, sir David King, o óleo cru hoje custa entre US$ 2 e US$ 6 o barril – e este será o óleo que o mundo consumirá nos próximos anos. A produção nas chamadas reservas não-convencionais, que incluem o pré-sal, por sua vez, está mais na faixa de US$ 40 a US$ 50 o barril. Quando o “colchão” dos campos amortizados da Petrobras acabar, a empresa voltará à realidade de preço do mercado, onde o pré-sal não consegue competir. Ao mesmo tempo, as alternativas renováveis estarão chegando mais rápido e mais barato que a produção de óleo não-convencional. A matemática é fatal para as ambições petroleiras do Brasil.
Mesmo que os preços venham a se recompor no futuro, não podemos esperar o mesmo da demanda por petróleo. Por isso, na opinião de Jeremy Leggett, presidente da Carbon Tracker Initiative, “think tank” em finanças, energia e clima, focar em petróleo como negócio principal, especialmente quando em águas profundas e de extração cara, não faz sentido. Em um mundo que se abre para uma grande transição global para energia limpa, a aposta de que a demanda por petróleo justifica a ampliação das suas áreas de extração ou da infraestrutura para seu processamento é de grande risco. Para ele, a estratégia da Petrobras de se concentrar na exploração do pré-sal parece um “pacto suicida”.
A favor da tese de Leggett há o caso da Peabody Energy, maior produtora privada mundial de carvão, que entrou com pedido de concordata em abril devido ao seu elevado nível de endividamento, aos preços baixos e à queda da demanda do minério.
Outras 50 mineradoras americanas de carvão pediram concordata desde 2012. Ou seja, acabamos de ver, no mundo do carvão, o que acontece para grandes companhias que apostam em demanda e preço errôneos. Não custa lembrar que a Peabody assegurava a todo mundo que a demanda por carvão cresceria.
Para reduzir a dívida, que no final de 2015 chegou a R$ 391,9 bilhões, a Petrobras pretende se desfazer de US$ 57 bilhões em ativos, entre campos de petróleo, fábrica de fertilizantes, participações em térmicas, em gasodutos, eólicas, biocombustíveis e na petroquímica Braskem. Embora a medida vise um retorno imediato, a Petrobras precisa estar atenta ao cenário mundial, particularmente depois do acordo de Paris, que mostrou uma direção nova de transição para um mundo menos intensivo em carbono. A atual crise do petróleo deverá trazer vantagem para o setor das fontes renováveis de energia e o Brasil está bem equipado para isso.
A Petrobras deve agir como empresa do setor de energia e não como empresa de um único e arriscado negócio. Deve buscar maneiras de ultrapassar suas atuais crises de caixa e endividamento com o cuidado necessário para não criar problemas para o próprio futuro. E os ativos fósseis serão um problema em futuro próximo.
Carlos Rittl é secretário executivo do Observatório do Clima, rede de 41 organizações da sociedade civil que foi formada para discutir as mudanças climáticas no contexto brasileiro.
http://www.valor.com.br//opiniao/4548577/encruzilhada-da-petrobras
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