Bermudes prepara recuperação judicial da Sete Brasil

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Bermudes prepara recuperação judicial da Sete Brasil
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O escritório de Sergio Bermudes — o telefone preferencial das empresas que foram à lona — se prepara para entrar com o pedido de recuperação judicial (RJ) da Sete Brasil ainda este mês.

O evento está marcado para 28 de janeiro, mas o pedido pode chegar ao juiz um pouco antes ou um pouco depois desta data.Sérgio Bermudes

A RJ da Sete Brasil vai obrigar os bancos credores a provisionar imediatamente bilhões de reais em créditos à empresa, ainda que alguns já tenham se antecipado em parte.

Um grupo de bancos composto pelo Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Itaú, Bradesco e Santander tem créditos de 3,6 bilhões de dólares (14,5 bilhões de reais) contra a Sete Brasil.

A implosão da Sete Brasil marca o fracasso da terceira tentativa do Governo brasileiro de fazer uma indústria naval local (a primeira foi com Juscelino, a segunda com Geisel). Em todas as tentativas, a União perdeu dinheiro e o País saiu mais pobre da experiência.

A Sete Brasil foi uma típica malandragem brasileira: a Petrobras e o Governo queriam investir um zibitilhão de reais na construção das sondas necessárias à exploração do pré-sal.

A ‘vontade política’ passava por cima de dois fatos econômicos: 1) seria muito mais barato comprar as sondas de estaleiros na Ásia; 2) a Petrobras não tinha capacidade financeira para fazer um investimento de tal monta.

Mas o que são os fatos para quem tem ‘vontade política’ e quando o barril de petróleo está em 100 dólares?

Como sempre, o Governo, habilmente assessorado por bancos de investimento, achou uma forma ‘criativa’ de evitar a realidade econômica: fazer o investimento fora do balanço da Petrobras. Criaram um novo CNPJ — a Sete Brasil — que se financiaria junto aos bancos tendo como garantia seu contrato de aluguel de sondas com a Petrobras. Para adoçar a boca dos bancos, estes seriam também acionistas da empresa, que tinha tudo para bombar.

O plano inicial previa que, entre 2014 e 2018, a Sete forneceria 28 plataformas, a um custo de 25 a 30 bilhões de dólares. As sondas seriam alugadas à Petrobras por um valor estimado, à época, em 600 mil dólares/dia. Para atender à demanda, novos estaleiros surgiram do nada, muitos controlados por empreiteiras sem histórico nenhum na indústria naval.

No final, a realidade — essa ingrata — se impôs. As sondas atrasaram, seja pela burocracia na entrada dos equipamentos nos portos, a falta de experiência dos estaleiros ou por mudanças nas especificações da Petrobras. Em seguida, a Lava Jato descobriu que a Sete Brasil era — mas quem diria? — um propinoduto. Um de seus executivos, Pedro Barusco, concordou em devolver 100 milhões de dólares que havia recebido em agrados. Por fim, o preço do petróleo começou a despencar, o que deprimiu o aluguel das sondas e inviabilizou terminantemente a empresa, que vai entrar para a História como mais um ícone de uma era de excessos.

No mundo todo, o histórico das leis de conteúdo nacional tem mais casos de fracasso do que de sucesso. O Brasil já falhou com a Lei de Informática dos anos 80 (que fez com que nossos PCs fossem mais caros e atrasados do que os lá de fora e não pariu nenhum Steve Jobs brasileiro) e com a indústria naval (três vezes). Entre os raros sucessos, Israel conseguiu fazer um Vale do Silício em Tel Aviv.

A decisão política de se investir em determinada indústria e fazer dela um campeão nacional é uma equação delicada, que deveria começar com a identificação correta de uma ‘vocação’ econômica natural do País e tem que levar em conta fatores como a qualidade do capital humano disponível, a infraestrutura institucional e os custos de produção. No Brasil, a História mostra que o voluntarismo político (em busca da gratidão eleitoral que vem com a geração de empregos) sempre expulsa do debate a análise séria, a comparação com métricas internacionais, e um planejamento conservador.

Os acionistas da Sete Brasil são os fundos de pensão Petros, Previ, Funcef e Valia; os bancos BTG Pactual, Santander e Bradesco; a própria Petrobras; o FI-FGTS, que administra parte do maltratado dinheiro do FGTS; e os investidores privados EIG Global Energy Partners, Lakeshore, e Luce Venture Capital. Todos viram seu investimento virar pó.

Agora, credores e acionistas vão se estapear na Justiça para minimizar seus respectivos prejuizos. Mas é o Brasil quem sempre perde mais.

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