Atraso do Plano de Negócios da Petrobras

—-
Atraso do Plano de Negócios da Petrobras
// Cidadania & Cultura

Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!

Curva de Produção da Petrobras

A área de Exploração e Produção (E&P), “core business” da Petrobras, provavelmente, não será poupada pelos cortes nos investimentos nos próximos anos. O real impacto da Operação Lava-Jato sobre a E&P será a revisão da curva de produção da petroleira e a diminuição dos esforços em exploração.

Quanto às pendências do balanço financeiro do terceiro trimestre de 2014, a ex-presidente da companhia admitia também que devia atrasar a publicação do plano de negócios, que costuma ser apresentado pela petroleira, geralmente, no início do ano. Dizia: “Não há menor condição de apresentar plano de negócios 2015-2019 até fevereiro, março ou abril. Supomos que em junho, no fim do primeiro semestre, teremos mais certeza sobre variáveis como câmbio, preço do petróleo e informações relativas à Operação Lava-Jato”.

O plano seria reduzir a necessidade de captações. A Petrobras trabalhava para não precisar ir ao mercado este ano e contratar o mínimo de dívidas possível em 2016 e 2017.

O fluxo de caixa da petroleira começa o ano de 2015 com saldo positivo de US$ 25 bilhões, enquanto o saldo final é estimado entre US$ 8 bilhões e US$ 12 bilhões. A expectativa é investir este ano entre US$ 31 bilhões e US$ 33 bilhões e gerar caixa operacional de US$ 28 bilhões a US$ 32 bilhões.

A revisão dos investimentos é necessária não somente devido às restrições ao mercado de crédito, mas também diante do cenário de queda dos preços do petróleo e desdobramentos da Operação lava-Jato sobre a disponibilidade de fornecedores no mercado.

O aumento da curva de produção continuará na lista de prioridade da companhia, mas que o cenário pede maior seletividade dos projetos da área. A essência do novo plano de negóciosa revisão do crescimento nos próximos anos.

O aumento da produção de petróleo não pode ocorrer em detrimento da rentabilidade. Não vai buscar pura e simplesmente uma meta de produção que não tenha boa margem positiva.

A queda dos preços do petróleo exigirá adaptações em projetos existentes e “testará” a rentabilidade dos novos projetos. A Petrobras está procurando alternativas como otimizações de layout de alguns projetos.

Uma das adaptações vem sendo feita em Marlim Sul, na Bacia de Campos. A companhia vai descontinuar o FPSO Marlim Sul e reconectar os poços da área em outras unidades com capacidade disponível. A intenção é reduzir o opex de projetos sem impactar a produção líquida da companhia.

No entanto, não há nenhum indicativo que os preços mais baixos do barril mudam os planos da companhia com relação ao pré-sal. A Petrobras vem tendo hoje resultados melhores, de produtividade por poço maior. A economicidade está melhor do que a prevista. O ponto de equilíbrio para os investimentos no pré-sal é de US$ 45 por barril.

Para este ano, a meta da companhia é aumentar a produção em 4,5%, para uma média de 2,125 milhões de barris/dia. O resultado será puxado pelo crescimento da produção em plataformas conectadas no ano passado, como os FPSOs Cidade de Ilhabela e Mangaratiba, e pela entrada em operação da P-61, em fevereiro, e do FPSO Cidade de Itaguaí, no quarto trimestre. O início da operação desses projetos deve compensar as perdas com paradas programadas para manutenção em plataformas, que devem reduzir em mais de 50 mil barris diários a produção este ano.

Na área de exploração, a companhia prevê reduzir a carteira de investimentos exploratórios ao mínimo. A Petrobras vai ter que ser de uma seletividade imensa ao avaliar se vale a pena participar de novos leilões de exploração.

No refino, a companhia optou pela descontinuidade dos projetos Premium I e II, que geraram uma baixa contábil da ordem de R$ 2,7 bilhões no balanço do terceiro trimestre de 2014. Não tem prazo para a conclusão do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) e da segunda etapa da refinaria Abreu e Lima (Rnest), em Pernambuco.

Ainda no refino, a Petrobras vai manter os preços da gasolina e do diesel em 2015, apesar da redução do preço do petróleo no mercado internacional. A diferença entre os preços dos combustíveis no mercado interno e externo é extremamente importante para o caixa da companhia nos anos de 2015 e 2016.

Quanto à atualização de seu plano de negócios, com uma meta de aumentar a produção em cerca de 1 milhão de barris por dia até 2018, a companhia vê a curva de produção ameaçada por uma série de fatores, como a queda do preço do petróleo e desdobramentos da Operação Lava-Jato sobre a capitalização da estatal e das fornecedoras e já considera a redução das metas como realidade.

Isso porque a execução de importantes obras de construção de plataformas e sondas está nas mãos de construtoras que passam por dificuldades de acesso ao crédito, como Engevix, OAS, UTC e Mendes Júnior.

Um dos projetos mais preocupantes do plano de negócios da estatal é o de construção de um conjunto de oito plataformas flutuantes de produção – chamadas FPSOs, no jargão técnico – para o pré-sal. Juntas, totalizam uma capacidade para produzir 1,2 milhão de barris ao dia. Os cascos estão a cargo da Engevix, que enfrenta situação de restrição ao acesso a crédito e avalia desinvestimentos para levantar caixa.

Do ponto de vista operacional, o desempenho da companhia na construção do primeiro casco gera dúvidas sobre o cumprimento dos prazos das obras das demais unidades. O casco da primeira plataforma, a P-66, foi concluído no final do ano passado, com dois anos de atraso. Com isso, as duas primeiras plataformas (as P-66 e P-67), inicialmente previstas para operar em 2015, foram postergadas para 2016.

O temor é que, diante dos problemas de caixa da Ecovix (estaleiro da Engevix), o ritmo das obras desacelere, justamente num momento em que o estaleiro começa a ganhar escala nas obras. Segundo a Petrobras, o casco e módulos da P-67 estão em estado avançado e a construção dos cascos das demais unidades segue o cronograma.

De acordo com a Engevix, os cascos das P-67 e P-69 se encontram atualmente no dique seco do estaleiro e têm 92% e 75% de suas execuções concluídas. A expectativa é que o casco da P-67 saia do dique no final de março, para a entrada da P-70, a quinta plataforma. Com dificuldades no cumprimento do cronograma do primeiro casco, a empresa transferiu a P-68 para a China. As obras, segundo a empresa, estão 85% concluídas.

Fora a construção dos cascos, o cronograma da integração dos módulos das plataformas também preocupa. A licitação para recontratação dos módulos de compressão de gás, após a rescisão do contrato com a Iesa, ainda não foi concluída pela Petrobras. Sem os equipamentos, o estaleiro Brasfels, em Angra dos Reis (RJ), não tem como concluir a construção da P-66.

A interligação dos módulos da P-67 também gera preocupações. A Petrobras já confirmou que o casco da unidade será encaminhado ao estaleiro do Consórcio Integra (OSX / Mendes Jr), no Porto do Açu, em São João da Barra (RJ), conforme previsto em contrato. Segundo a Petrobras, o consórcio “está tomando as providências finais para permitir o recebimento do casco”. As duas sócias, contudo, enfrentam dificuldades financeiras justamente na fase em que será necessário capital para tocar as obras.

Este mês, as agências Standard & Poor’s e Moody’s rebaixaram o rating de crédito da Mendes Jr., como reflexo dos desdobramentos da Lava-Jato, para CCC+ e Ca, respectivamente. Já a OSX segue em recuperação judicial.

“Claramente há uma situação, no mínimo, de desconforto, de desestabilização do mercado”, comenta o ex-diretor da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e consultor independente, David Zylbersztajn.

Na construção das sondas, a empresa Sete Brasil vem atrasando o pagamento a fornecedores, o que gera temores sobre o ritmo das obras. Ao todo, 19 das 28 embarcações contratadas pela Petrobras junto à Sete estão previstas para entrar em operação até 2018. Desse total, segundo uma fonte a par do assunto, 17 estão hoje em construção, mas apenas duas com estágio de execução acima dos 80%.

Seis sondas estão a cargo do Estaleiro Enseada Paraguaçu, que convive com demissões desde que a Sete Brasil interrompeu os repasses ao estaleiro, no final do ano passado. Soma-se a isso a dificuldade da UTC e OAS, sócias da Odebrecht e Kawasaki no EEP, em acessar o mercado de crédito.

Responsável também pelas obras de conversão das plataformas da cessão onerosa (P-74, P-75, P-76 e P-77), no estaleiro Inhaúma, no Rio, o Enseada já estuda um novo rearranjo societário para levantar capital, diante das dificuldades de captação das empresas envolvidas nas obras. No início do mês, a OAS teve suas notas rebaixadas pelas agências S&P e Fitch para nível “D”, que já reflete alta probabilidade de “default” (calote) por parte da empresa. No mercado, cresce a expectativa de que a construtora entre em recuperação judicial.

Procurado, o Enseada esclarece que o contrato com a Petrobras, executado no Inhaúma, tem transcorrido dentro da normalidade. O avanço físico da P-74 é de 92%, enquanto as conversões da P-75 (84%), P-76 (78%) e P-77 (78%) caminham para fase final. As obras estão previstas para serem finalizadas em 2015.

A companhia afirma, ainda, que as etapas de engenharia e de suprimentos para fabricação de todas as seis sondas para a Sete Brasil estão em andamento. As etapas de fabricação, construção e montagem já foram iniciadas nas duas primeiras embarcações, que apresentam avanço físico global de 54% e 18% respectivamente. A primeira sonda, Ondina, está prevista para ser entregue em 2016, enquanto a segunda, Pituba, em 2017.

Se, por um lado, o atraso nos investimentos reduz a necessidade de captação no curto prazo, por outro, traz perdas indiretas ao caixa da empresa. Com uma curva de produção tão acentuada, qualquer atraso tem impactos bilionários sobre o caixa da companhia. Em 2014, por exemplo, a Petrobras deixou de faturar US$ 1,5 bilhão por ter produzido 15,3 milhões de barris abaixo da meta de crescimento de 7,5%, segundo o Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).

A própria petroleira já admite que a área de Exploração e Produção não será poupada dos cortes de investimentos. A avaliação é que a Lava-Jato trará impactos diretos sobre a realização física das obras em plataformas. A queda do preço do petróleo também precisa ser considerada. Como já dito, a Petrobras não vai buscar pura e simplesmente uma meta de produção que não tenha boa margem positiva.

—-

Shared via my feedly reader

INTELLIGENTSIA DISCREPANTES

Não perca nossas informações!

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.


Descubra mais sobre Intelligentsia Discrepantes

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Descubra mais sobre Intelligentsia Discrepantes

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading